Sérgio Nascimento de Carvalho
(UERJ, EM e UNESA)

(…)

A compreensão do processo de leitura talvez seja o que há de mais importante na sala de aula tanto de língua materna (LM) quanto de língua estrangeira (LE). Nuttal (1982) afirma que “sem dúvida alguma, o indivíduo tem várias razões para ler, basta comparar-se com outras pessoas. As pessoas, ainda, lêem em diferentes níveis de compreensão”. A referida autora menciona que “as pessoas lêem tipos de textos (dicionários, receita, anúncio, etc.) diferentemente”. Em outras palavras, uma pessoa não lê um dicionário da mesma forma que lê uma receita culinária. Portanto, o objetivo que uma pessoa possa ter numa determinada leitura influenciará na forma como ela irá ler o texto. Algumas leituras devem ser feitas detalhadamente, outras, de forma mais geral. Ao lermos, fazemos uma “recriação do significado” (KLEIMAN, 1989). É como Widdowson (1979, 1984) diz: “o significado não é intrínseco ao texto, mas é construído pelos participantes do discurso”. O leitor é “ativo, ele planeja, decide, coordena habilidades e estratégias, traz para o texto expectativas, informações, idéias, crenças, selecionam pistas significativas, formulam ou confirmam hipóteses”, diz Nunes (1997). Mas é, sem dúvida alguma, o professor de leitura, que irá desempenhar, segundo a estudiosa, um papel de destaque tanto em LM como em LE nessa tarefa de motivar os seus alunos para a importância da leitura. Nutall (1987: 23) diz que:

O anúncio em inglês que aparece no jornal diário; a entrevista para uma vaga em uma determinada empresa. Por conseguinte, os textos escolhidos por esse professor deverão ter o compromisso de mostrar quaisquer dos propósitos autênticos da escrita: informar, entreter, etc. Ele, o texto, deve passar uma mensagem.

Ainda dentro dessa relação de ler em LM e LE, Grigolleto (1990: 41) acrescenta:

Ser tarefa do professor de LE estimular o aluno a superar esse bloqueio (dificuldades com vocabulário e estruturas sintáticas do texto) mediante um trabalho de desenvolvimento da habilidade de leitura semelhante ao que deve ser feito em LM – desenvolvimento ( e conscientização) de estratégias de leitura e análise crítica dos textos.

Moita Lopes (1995: 349), muito apropriadamente, coloca a sala de aula como “um evento social no qual através de procedimentos interacionais, professor e alunos tentam construir significado e conhecimento”.

Caberia, então, nos perguntar algumas questões sobre essa relação da leitura em LM e a de LE. As estratégias de compreensão são as mesmas nas duas condições? São essas estratégias transferíveis de uma língua para outra? O desconhecimento lingüístico em LE afeta a compreensão?

Coracini (1995: 11) ao dizer que investigações sobre o processo de ler com experiências realizadas com aulas de língua materna (Língua Portuguesa) e estrangeira (Francês e Inglês) mostram que o conhecimento, a reflexão e as habilidades desenvolvidas nunca influem, com certeza, na aprendizagem das outras: queiramos ou não, não é apenas a LM que está sempre pressuposta na aprendizagem daquela. Assim, as concepções de texto, de leitura, de ensino-aprendizagem que o aluno traz das aulas de LM vão influenciar as concepções de texto, leitura e ensino-aprendizagem da LE.

Grigolleto (1195: 85), em suas reflexões sobre ensino-aprendizagem de LE, registra que “a concepção de texto e leitura que os alunos têm em relação à LM é semelhante à LE”. Os alunos tentam se apoiar nas palavras conhecidas, na tradução termo a termo e na suposição de que o sentido do texto está pronto para ser recuperado pelo verdadeiro leitor. Em complemento a essa observação, Carmagnani (1995: 95) afirma que, em experimentos realizados, “quando se fala de leitura e compreensão em LE, um processo diferente daquele desenvolvimento em LM se instala: o foco deixa de ser a leitura e passa a ser a língua como um fim em si mesma”, conforme atesta o depoimento abaixo entre vários citados pela autora no seu artigo: “A leitura é o melhor método de aprender gramática, melhorar vocabulário e sentir o uso da língua”.

Segundo Leffa (1991: 21), “os alunos tendem a ver a língua como um conjunto de palavras, aprender uma língua é aprender palavras, memorizar listas de palavras e usar o dicionário”. Neste sentido, parece possível concluir que o conceito de textos é o de um aglomerado de palavras que contêm em si o significado do texto.

Ainda sobre essa questão do processo de compreensão em LE, vários lingüistas aplicados se perguntam se o problema reside no desenvolvimento do código ou na falta de competência em leitura, independentemente da língua. Em pesquisa realizada com alunos brasileiros por Meuer (1987), concluiu-se que não existe diferença de desempenho entre LM e LE, quando se trata de leitores que já tenham adquirido um grau de proficiência mais ou menos alto na LE. Grigolleto (1990) comenta que

Os seus dados sugerem uma conclusão semelhante: na leitura em LE ocorrem problemas de desconhecimento do código, mas leitores com proficiência alta na língua podem, muitas vezes, aplicar as mesmas estratégias que provavelmente utilizariam em LM para tentar criar relações de sentido onde há de sentido onde há desconhecimento.

Como podemos observar, não é surpreendente que haja desacordo entre os pesquisadores no que se refere às questões acima abordadas.

Fonte: http://www.filologia.org.br/soletras/10/12.htm

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