Fonte: http://www.nytimes.com/2011/05/01/opinion/01eggers.html?_r=1

Por DAVE EGGERS e NÍNIVE CLEMENTS CALEGARI

Publicado: Abril 30, 2011

QUANDO nós não conseguimos os resultados que queremos em nossos esforços militares, nós não culpamos os soldados. Nós não dizemos, “Foram esses soldados preguiçosos e seus planos de benefícios excessivos! Foi por isso que nós não nos saímos melhores no Afeganistão!” Não, se os resultados não estão de acordo, nós culpamos os planejadores. Nós culpamos os generais, o secretário de defesa, os Chefes de Estado. Ninguém acusa os homens ou mulheres que lutam todos os dias nas trincheiras por um baixo salário e reconhecimento insuficiente.

E, todavia, na educação nós fazemos isso. Quando não gostamos do desempenho de nossos estudantes em testes internacionais padronizados, nós culpamos os professores. Quando não gostamos do desempenho das escolas particulares, nós culpamos os professores e reduzimos os seus recursos.

Comparemos isso à nossa abordagem aos nossos militares: quando os resultados em campo não são os que esperávamos, pensamos em maneiras para melhor apoiarmos os nossos soldados. Nós tentamos dar a eles melhores ferramentas, melhores armas, mais proteção, melhor treinamento. E quando o recrutamento é baixo, nós oferecemos incentivos.

Temos uma chance rara agora, com muitos professores aproximando-se da aposentadoria, de provar que somos sérios em relação à educação. O primeiro passo é tornar a profissão do professor mais atraente para os universitários. Isso requer alguma ação.

No momento, o salário médio do professor é equivalente ao do coletor de pedágio ou barman. Os professores recebem 14 por cento menos do que os profissionais em outras ocupações que requerem níveis de educação semelhantes. Em termos reais, o salário dos professores tem caído nos últimos 30 anos. O salário médio inicial é $39.000; o salário médio em final de carreira – após 25 anos na profissão – $67.000. Isso faz com que os professores não consigam comprar uma casa em 32 áreas metropolitanas, e faz com que constituir uma família com um salário quase impossível.

Então, como os professores conseguem? Sessenta e dois por cento trabalham fora da sala de aula para conseguir equilibrar o orçamento. Para Erik Benner, um professor de história premiado de Keller, Texas, o dinheiro tem sido uma batalha constante. Ele tem dois filos, e há 15 anos não tem sido capaz de sustentá-los com o seu salário. Todo dia útil, ele sai diretamente da Trinity Springs Middle School para operar uma empilhadeira na loja Floor and Décor. Ele trabalha até as 11 todas as noites, depois levanta e começa tudo novamente. Isso parece “Um Plano”, a nível estadual ou federal? Temos trabalhado com professores de escolas públicas por 10 anos; todo ano, vemos muitos dos melhores professores abandonarem a profissão. Eles estão esgotados pelas longas horas de trabalho, baixo salário, falta de apoio e respeito.

Imaginem um professor iniciante, atirado em uma escola urbana, a quem se pede para ensinar cinco turmas por dia, com até 40 alunos cada. No fim do ano, se os resultados dos testes não aumentaram suficientemente, ele ou ela é chamado de professor ruim. Para os universitários que têm outras opções, este tipo de pressão, para um salário tão baixo, não faz muito sentido. Então, todos os anos, 20 por cento dos professores de áreas urbanas abandonam a carreira. Em nível nacional, 46 por cento dos professores largam a carreira antes do quinto ano. Isso custa aos Estados Unidos $7.34 bilhões anualmente. O efeito dentro das escolas  — especialmente aquelas nas comunidades em áreas urbanas onde a rotatividade é maior — é devastador.

Mas podemos mudar esse curso. Nos próximos 10 anos, mais do que a metade dos quase 3.2 milhões de professores de escolas públicas estarão elegíveis para aposentadoria. Quem os substituirá? Como podemos atrair e manter as melhores mentes na profissão?

As pessoas falam sobre prestação de contas, medições, estabilidade, resultados de provas e remuneração por desempenho. Estas questões merecem um debate, mas são secundárias em relação à seleção e capacitação dos professores e a tratá-los justamente. Não há nenhuma bala de prata que consertará toda escola na América, mas até que solucionemos o problema da rotatividade dos professores, não temos nenhuma chance.

Podemos melhorar? Podemos elaborar “Um Plano”? É claro.

A firma de consultoria McKinsey examinou recentemente como nós podemos atrair e reter o grupo de professores talentosos. O estudo comparou o tratamento dado aos professores aqui e em três países que tiveram melhor desempenho em testes padronizados: Finlândia, Singapura e Coréia do Sul.

Acontece que estes países têm uma abordagem à profissão totalmente diferente. Primeiro, os governos nestes países contratam os melhores formandos para esta profissão. (Nós, não.) Na Finlândia e em Singapura, eles pagam para a capacitação. (Nós, não.) Em relação ao poder aquisitivo, a remuneração dos professores da Coréia do Sul é, em média, 250 por cento do que nós pagamos.

E, principalmente, eles confiam nos seus professores. Eles são corretamente vistos como a solução, não o problema, e quando aperfeiçoamento é necessário, a escola recebe apoio e desenvolvimento, não punição. Consequentemente, a rotatividade nestes países é surpreendentemente baixa: na Coréia do Sul, é 1 por cento por ano. Na Finlândia, é de 2 por cento. Em Singapura, 3 por cento.

McKinsey entrevistou 900 estudantes americanos de nível superior e constatou que 68 por cento considerariam ensinar se os salários iniciais fossem $65,000 e aumentassem a um máximo de $150,000. Podemos fazer isso? Se nos comprometermos em “conquistar o futuro”, nós devemos. Se alguma administração é capaz de combater isso, é a atual. O Presidente Obama e a Secretária de Educação Arne Duncan compreendem a centralidade dos professores e têm dito que melhorar o nosso sistema educacional começa e termina com ótimos professores. Mas educação de classe custa dinheiro.

Para aqueles que dizem, “Como pagamos isso?” — bem, como estamos pagando por essas guerras concomitantes? Como pagamos pelo sistema de rodovias interestaduais? Ou o resgate da poupança e empréstimos em 1989 e dos bancos de investimentos em 2008? Como pagamos pelo projeto igualmente ambicioso de enviar americanos à lua? Tivemos a visão e tivemos a vontade e encontramos uma maneira.

Dave Eggers e Nínive Clements Calegari são fundadores de 826 centros de tutoria nacionais e produtores do documentário “O Professor Americano.”

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